Mais de duas década de abusos, agressões verbais, violência doméstica pelo viés moral, sexual, psicológico e patrimonial. Todas as violências praticadas por um único homem: meu ex-marido. Que se valia do caráter matrimonial para disfarçar seus crimes. Que me fez acreditar que era minha obrigação, como mulher, manter relações sexuais mesmo sem eu querer. Nem as lágrimas, incontidas em um momento de dor, durante o ato sexual, foram capaz de parar as violências praticadas por ele. Só bem mais tarde, com a terapia e o acompanhamento clínico, é que passei a entender muita coisa. 

É tão fácil entender agora. 

Nunca tive um relacionamento longo com outra pessoa. Namorei pouco. Quando conheci “Roberto”, eu tinha 16 anos. Ele era charmoso, bonito e parecia muito interessado em mim. Fiquei deslumbrada. Tudo aconteceu depois do primeiro ano…Ele implorou-me que o perdoasse. Disse que havia ficado louco de ciúmes… E se ele perdera o controle a tal pondo, era porque me amava… Aprendi que isso faz parte da armadilha, o ciclo… Era um padrão que eu não só recusava a enfrentar, mas pelo qual era tão responsável quanto ele. 

Deixei que ele me convencesse de que a culpa sempre era minha. A cada vez era sempre minha. Ou eu não era bastante inteligente, ou não era suficientemente sensual ou quieta ou extrovertida. Dependia da situação. Isso durou trinta e um anos. 

Eu fugi de casa. Não levei nada. Lembro-me do medo, da ansiedade, do desespero, porque ele havia dito que nunca se separaria e que viria atrás de mim. Mas eu sabia que acabaria me suicidando se ficasse mais um dia. Havia até imaginado como me mataria: tomaria pílulas, porque me sentia uma covarde. E ele veio atrás de mim. E, como sempre, começou as explicações irracionais. Disse que eu estava errada, e que precisava me comportar como uma esposa. Sei que tenho minha parcela de culpa, porque eu sempre acreditava.

Susete Pasa

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