Durante 31 anos eu sofri maus tratos psicológico por parte do meu ex marido. Concretamente, uma forma de abuso conhecida como gaslighting. Trata-se de um abuso sutil, manipulador, o qual desgastou a minha autoestima, a confiança em mim mesma, a ponto de me anular como pessoa, de me transformar em um punhado de dúvidas e medos. 

Eu quase nunca tinha consciência de estar sendo abusada. Ou, pelo menos, não como se entende agora, já que não há uma agressão clara. Simplesmente, tudo é colocado em dúvida, tudo se discute. E os meus pontos de vista sempre eram menosprezados, então, fui me fechando de uma forma muito difícil de explicar, e muito complicada de denunciar.

Ele discutia sobre tudo. Tudo colocava em dúvida. Até as coisas que não têm discussão, como meu estado de espírito ou meus sentimentos. Tudo era um exagero meu, uma invenção ou uma paranoia. Tudo estava em minha cabeça, então, acabei acreditando que era eu que não estava à altura e, para não continuar decepcionando-o, me calei. 

Parei de opinar, parei de responder e simplesmente de me expressar. Fiquei completamente anulada como pessoa, ele tinha controle total sobre mim. Fiquei sem forças, sem energia, todo dia preocupada em não aborrecê-lo, em não decepcioná-lo. Até que compreendi que aquilo não era normal, que eu não podia continuar vivendo assim, que eu precisava procurar ajuda. Foi neste período que procurei ajuda de uma psiquiatra, e depois, terapia. 

O abuso gaslighting é uma forma de violência muito perversa, porque é contínua. Ele consegue manipular mediante o exercício de um assédio constante, mas sutil e indireto, repetitivo, que vai gerando dúvidas e confusão em quem sofre, a ponto de chegar a se sentir culpada das condutas de violência do abusador e duvidar de tudo que acontece à sua volta. Não desejo isso para ninguém.

Susete Pasa

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