Avaliação:
5/5

**O romance mais complexo que li nos últimos tempos.**

O autor é Haruki Murakami, apresenta um pouco da sua alma em cada novo parágrafo do livro 1Q84. Trata da história de dois personagens: Tengo e Aomami. Apresentando suas vidas de forma individual e única, dedicando a estes capítulos com seus respectivos nomes. No decorrer da narrativa nota-se que as vidas destes personagens tendem a se conectar de uma forma criativa e inusitada. Quem abre 1Q84 é Aomami, e o significado do seu sobrenome, “ervilha verde”, a constrange desde sempre. Este, entretanto, está longe de ser o único detalhe incomum a respeito da personagem. Aomami, é de fato, tão singular como as suas ocupações de instrutora de artes marciais e assassina ocasional sugerem. A primeira não é tão excepcional. Formada em educação física, ela sempre se interessou por esportes. Na academia em que trabalha, seu grande prazer é ensinar defesa pessoal para mulheres, para que possam se defender em um possível ataque. Essa atividade possui uma espécie de conexão com sua identidade de homicida. E de uma personagem cujo nome o leitor não fica conhecendo, apontada como proprietária, ou velha senhora, ao longo da narrativa, de quem Aomami recebe ordens para matar certos sujeitos. Seu método é preciso, ela mata somente homens, e apenas, na sua opinião, que merecem esse fim. O vínculo entre a anciã  e Aomami é mais do que profissional, é uma relação parecida de mãe e filha. A velha senhora guarda um segredo parecido com o de Aomami, uma dor que a tornou solitária ao drama das vítimas de violência doméstica. Riquíssima, a idosa consegue manter um abrigo onde auxilia estas mulheres a começarem uma vida nova. Além de Aomami e a velha senhora, duas personagens que evidentemente rompem com os estereótipos da fragilidade e que auxiliam mulheres, vítimas de violência, há Hayumi, uma policial que, mesmo tendo sua competência reconhecida, é incapaz de galgar qualquer posição em uma carreira fortemente dominada pelo machismo. Aomami e Hayumi se conhecem em um bar e, desde o primeiro encontro, agem em dupla para atrair homens e levá-los para cama. Seu intuito, nas noites em que procuram por dois homens desacompanhados, é o sexo intenso e livre de compromisso. Em relação a postura liberal abordada por ambas, não existe o menos indício de sentimento de culpa, ao contrário, elas experimentam um grande alívio ao satisfazerem suas necessidades básicas. A fuga dos padrões é, para elas, um direito e um dever.

Tengo, outro personagem central, é professor de matemática em uma escola preparatória, e um aspirante a escritor. Tem a mesma idade de Aomami, próximo aos trinta anos. A solidão é outro ponto em comum, embora o personagem  mantenha um caso descabido com uma mulher mais velha e casada. Além da relação pouco gratificante que lhe ocupa as tardes de sexta-feira. Tengo se satisfaz com suas aulas, seus livros, sua escrita, seus cálculos. Sua vida é pacata, estagnara. Com as limitações autoimpostas e com as fronteiras do próprio autoconhecimento, Tengo, embora domine a técnica, não é capaz de escrever um romance brilhante. Faltam-lhe ideas, rompantes, imaginação. Sua prudência e inércia são desafiadas quando Komatsu, um conhecido que edita uma revista literária, lhe faz uma proposta tentadora e perigosa. Ele lhe pede que reescreva “A crisálida do ar”, uma obra extremamente original, cuja linguagem é problemática. O intuito é melhorá-la e inscrevê-la em um concurso literário. Com a força do enredo e a narrativa reorganizada por Tengo, seria fácil conquistar o prêmio. Mesmo temeroso, Tengo admite para si mesmo que está obcecado pela história, e acaba aceitando a oferta de Komatsu.

A história é contada por uma garota disléxica de dezessete anos, Fukaeri, a sinistra história acaba, no contexto de 1Q84, por se revelar verídica. Alguns acontecimentos específicos do período em que viveu em uma comuna agrícola, Fukaeri vivia refletiva, nos primeiros anos, a doutrina marxista. Seus integrantes cultivavam alimentos orgânicos e levavam uma existência simples. Tempos depois, acontece um rompimento, alguns dissidentes radicais, membros que apoiavam uma revolução armada, fundaram uma segunda comuna e a batizaram de Akebono. Sakigake, seguindo intenções desconhecidas por qualquer um que não pertencesse a ela, torna-se oficialmente uma seita religiosa. Muros altos são erguidos para que não haja interferência do mundo exterior, e terras são adquiridas para ampliar a área da propriedade. É nesse momento que Fukaeri, cujo pai costumava ser um dos líderes de Sakigake, decide fugir de sabe-se lá que abusos. Seus relatos imprecisos contém elementos fantasiosos. Quem será o povo pequenino? O que fazem? O que querem? É possível vê-los literalmente como um grupo de diminutas pessoas? Nesse ponto, sobre  “A crisálida do ar”, vemos a genialidade de Murakami a trabalhar com um texto dentro de outro texto, no sentido que  “A crisálida do ar”, é um texto que está dentro de outro texto, a saber 1Q84, com referências minúsculas e quase ocultas sobre o último. Nota-se aqui um esforço do autor para tornar a trama do livro atraente e perspicaz. Também é nesse momento que nos é apresentado a existência de um povo chamado de “povo pequenino”, o qual será capital a trama da obra. Mesclar realidade e fantasia. É difícil separar aquilo que é possível explicar de forma racional e o que acabará sem esclarecimentos. Da mesma forma, não se pode negar, que talvez uma cópia sua, viva em um mundo paralelo, ainda não desvendado por nós. Recomendo a todos essa deliciosa leitura.

Susete Pasa

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.