Avaliação:
3/5

1Q84 – Livro 2

Enquanto no primeiro livro da trilogia Murakami introduziu a história, o cenário, os personagens e a idéia de um aparente universo paralelo, no segundo livro temos um verdadeiro misto de suspense, mistérios, romance e tensão. É incrível o avanço da história. Tengo e Aomame estão em 1Q84, um mundo com duas luas no céu, estranhas ceitas e como se não bastasse, sendo assistidos pelo tão questionado Povo Pequenino. Murakami se aprofunda no mistério que envolve a história, abre e fecha portas, além de deixar o leitor em um estado que vai além da curiosidade.

Boa parte do livro depende da compreensão e da dedução do leitor. No segundo volume, algumas peças começam a se encaixar, enquanto outras parecem se distanciar ainda mais do quebra-cabeças (põe quebra nisso) criado pelo criativo Murakami. Por enquanto, muitas das coisas ainda não passam especulações. Como eu disse, as peças e pistas deixadas para trás precisam ser analisadas pelo leitor. Afinal, o Povo Pequenino não facilitará o lado de ninguém. Aomame é designada para a missão de matar o líder da comunidade chamada de Sakigake. A comuna agrícola em que Fukaeri viveu até seus 10anos de idade, do qual seu pai costumava ser um dos líderes… Tengo, por sua vez, se vê diante de um embate ético: aceitar o financiamento de um grupo misterioso em troca de proteção. (supostamente do Grupo Sakigake ou do Povo Pequenino ????), ou correr todos os riscos de estar sozinho diante de problemas que ele sequer conhece a dimensão e a gravidade.

Os personagens amadurecem e  aprofundam a autoconsciência e a compreensão da própria vida e dos problemas e questionamentos pessoais.

Inúmeras perguntas são respondidas neste livro: quem é o líder, quais os motivos da sua atitude, quem é povo pequenininho, o que é crisálida do ar, entre outras. Novos conceitos, como os de maza e dohta, foram introduzidos e devidamente explicados. É um livro que requere atenção, isso é fato. Não diria que se trata de uma leitura leve e rápida, mas totalmente intrigante. Me senti parte da história, em uma leitura que quanto mais se lê, menos sabe onde está pisando… Neste volume, repleto de frases de impacto e que nos conduzem à reflexão, Murakami intensifica os questionamentos acerca da “realidade”, do “verdadeiro”. Diálogos bem colocados, um universo diferente, personagens complexos e muito mistério. Também é imprescindível mencionar a capacidade do escritor de transitar entre o real e o imaginário…

Super recomendo!

⭐⭐⭐️⭐⭐

“(…)  A maioria das pessoas não busca a comprovação da verdade. A verdade quase sempre traz consigo uma intensa dor, como você mesma acabou de dizer. Elas não buscam a verdade que vem acompanhada da dor. O que as pessoas querem é uma história bonitinha e agradável, que as faça enxergar um sentido em suas vidas. É por isso que existem as religiões.

O homem virou o pescoço algumas vezes e prosseguiu:

— Se a teoria “A” mostrar que a existência de um homem ou de uma mulher possui algo de significativamente profundo, essa teoria será considerada verdadeira. Por outro lado, se a teoria “B” mostrar que a existência desse homem e dessa mulher é impotente e insignificante, ela será considerada falsa. Isso está bem claro. Se alguém insistir que a teoria “B” é a verdadeira, as pessoas provavelmente vão odiá-la, criticá-la e, dependendo do caso, atacá-la. Para essas pessoas, não importa se a teoria “B” possui algum tipo de lógica que se possa provar. A maioria das pessoas se recusa a enxergar sua própria imagem como impotente e insignificante e, ao negar isso, tenta manter, de um modo ou de outro, sua própria saúde mental. “(Murakami, Haruki – 1Q84 vol.2– p.175)

Susete Pasa

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